terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

O ego espartilhado

A luz que desce no infinito de meu corpo,
cujo ego em reverência ao claro brilho
despeja cataratas de água e fogo,
não cerra, mas desata os espartilhos.

Como navios a zarpar desatracados,
como a tormenta faz arder o infinito,
é desumano cada gesto ensaiado.
Rasga-se o eco a libertar o próprio grito.

O vésper opaco semeado já germina
o fogo e a semente em rodamoinho,
a batalha contra o algoz ora se finda.

O paladino segue só o seu caminho,
o alado pensamento brada e xinga
esvaindo-se repousa sobre o espinho.

A volta de um caipira

Esgueirando-me entre capins e transpondo sebes imagináveis, toco o solo com as mãos, com a intimidade de um filho que toca o corpo da própria mãe. Sinto-me abraçado como se eu fosse o filho pródigo. Não cobro nada deste solo, basta-me tocá-lo para me sentir feliz.

Já foste meu brinquedo quando fui criança, serás meu refúgio onde me apascentarei. Abrigo aconchegante que servirás de enlevo quando a inexorável cronologia me fizer ancião. Terei como testemunhas de meus dias o ininterrupto correr das águas de dois regatos, um a minha esquerda, outro à direita, os quais, mais que fonte de água fresca, me servirão de guardiões. Serão eles que levarão minhas lágrimas se algum dia eu chorar. Também será ali que banharei meu corpo fadigoso numa tarde quente, após um dia de cumplicidade com a dadivosa terra que lhe empresta os barrancos para ordenar seus cursos.

Despertar-me-ei com o zinir de cigarras e, flamejante como um espartano, empunharei o mastro do lábaro da vida até que este seu filho seja devolvido a suas entranhas.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Náufragos

Quantos sonhos destruidos...
Realizá-los? Quem dera!
Trabalha, poupa e aplica,
nada que se faz prospera.

Somos náufragos em terra firme
num mar de lama e miséria.

Como nau em mar revolto
sem farol para direção,
a elite no convés e o povo no porão.

Somos náufragos em terra firme
num mar de corrupção.

O povo é como manada,
sem pascigo pouco come.
Negros e brancos são escravos
da miséria que os consomem.

São náufragos em terra firme
num mar de pobreza e fome.

Pobre do povo que não luta
por excesso de paciência,
acredita ns discursos da elite avarenta.

São náufragos em terra firme
num mar de esperança e crença.

As estações

O inverno é um velho que anda de casaco, gorro e cachecol.
O outono é forte e de meia idade, vende frutas numa carrocinha.
O verão é um jovem irresponsável, só pensa em brincadeiras.
A primavera? Não a conheço, dizem que é uma jovem lindíssima.

Semana

Eu queria ser como a quarta-feira.
Sabe aquela coisa de ficar bem longe dos extremos?
Eu não seria como a velha e péssima segunda
que traz toda a ressaca do domingo.
E nem eufórico e inconsequente como a sexta-feira.
Eu passaria desapercebido entre a terça e a quinta,
e as usaria como escudo protetor das bebedeiras do sábado.
Mesmo sabendo de antemão que um dia serei quarta-feira de cinzas,
restaria-me então o consolo de que nunca seria carnaval.

Mula-sem-cabeça

No interior de São Paulo,
quando é noite de minguante,
a escuridão toma conta
do cerrado verdejante.
As águas claras refletem
as estrelas cintilantes.
Parece um paraíso
este lugar que eu vivo,
natural e aconchegante.

Quando a ventania sopra
nas copas dos favais,
o ranger dos galhos das árvores
assusta os animais.
O ouriço corre sozinho,
vai roçando seus espinhos
nos espinhos dos ananases.
Dentre as moitas de taboca,
o tatu procura a toca
para se esconder dos temporais.

Nas horas mortas da noite
tudo é desassossego:
corre a mula-sem-cabeça
com seus olhos acesos.
O Saci e o Boi-tatá,
gritam para espantar
uma revoada de morcegos.
E alheio atudo aquilo,
o caipira dorme tranquilo
tendo um rosário entre os dedos.

Os missivistas

Por onde andam os missivistas?
Já não escrevem mais cartas:
Tanto de tanto de mil novecentos e tanto, saudações...
Seguiam-se linhas fartas!
Por onde andam as telefonistas?
Para onde irão, um dia, os internautas?
 
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